Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Outubro 16 2009

A nossa querida Associada Maria Vitória Afonso enviou-me cópia de duas cartas (já publicadas no Diário do Sul), da sua correspondência com a escritora brasileira Maria da Luz Alves, que há pouco tempo lançou em Portugal o seu último romance, A Filha do Cerrado, que a APP publicitou.

 

Gostei muito destas cartas abertas e espero que os associados também gostem de um estilo e hábito que se vão perdendo na época em que a internet é dona e senhora da comunicação, em que os poemas, os trabalhos se seguem numa velocidade tal que muitas vezes não conseguimos sentir na sua plenitude a sua mensagem,  o seu perfume poético.

Para mim, ainda continua a ser importante o "cheiro" do livro, do papel nas minhas mãos!

Maria Ivone Vairinho

 

Amizade e Literatura

 

Carta Aberta à romancista Maria da Luz Alves

 

Regressada da Beira Alta, após umas mini-férias tive logo o prazer de te ver e conversar contigo através do M.S.N. e câmara enfim a facilidade das novas tecnologias nos darem a oportunidade de falarmos do que muito nos encanta na vida: literatura brasileira e literatura portuguesa. 


Não levava comigo ideias de escrever mas sim de ler. Comprei o “Expresso” pois como sabes não dispenso a leitura da “crónica do lado de lá”de Luís Fernando Veríssimo. Depois de ler o seu livro”As Mentiras que os Homens contam” que gentilmente me trouxeste do Brasil como oferta, não mais vou perder a oportunidade de me deliciar com o seu humor, a sua sabedoria.
Se é verdade que filho de peixe sabe nadar, Luís Veríssimo filho de um dos maiores romancistas do Brasil tem um estilo inconfundível.
Eu já te contei que tive o privilégio de aos 15/16 anos conhecer pessoalmente Érico Veríssimo quando ele se deslocou à cidade de Beja. Conseguindo um convite que não foi fácil de obter eu assisti à conferência e à sessão de autógrafos.  Curiosamente apenas duas jovens, eu e uma amiga,  se encontravam na assistência.
E foi a nós duas que Érico Veríssimo se dirigiu para colocarmos as questões que iniciariam o debate o que fizemos com o orgulho e entusiasmo próprios da idade.
A grande empatia que o escritor tinha com a juventude....

Eu obtive um autógrafo para o livro “Um lugar ao Sol” e a minha amiga para o livro “O resto é silêncio”.Foi para nós um dia inesquecível....
Depois li todos os livros de Érico Veríssimo de que continuo grande admiradora Quando comecei a ler os teus romances eu encontrei alguma semelhança com a obra de Érico Veríssimo:
-Muito humanismo
-Vivacidade nas descrições
-candura dos personagens
-magia na caracterização do sul brasileiro

Por coincidência tu trazes-me um livro do filho dele e  eu tornei-me incondicional admiradora do grande cronista Luís Veríssimo antes mesmo de saber que era dos maiores do Brasil.
De vez em quando envio-te para o Brasil as minhas crónicas do Diário do Sul.
Generosamente dizes que arquivas num dossier as minhas crónicas. E que no humor te faço lembrar o Luís Veríssimo. Não amiga....Eu como dizem os alentejanos  sou apenas uma”c(u)riosa”.

Em linguagem alentejana significa uma pessoa que gosta de fazer uma coisa para a qual tem apenas um jeitinho.
Mas o que dizes é um grande estímulo para o meu desejo de continuar a escrever.
Nas nossas conversas falamos de escritores portugueses. Eu sou uma grande admiradora de Miguel de Sousa Tavares.
Aprecio a sua escrita  criativa e sensível .Deve ser herança genética daquela senhora sua mãe ,que foi grande  na poesia e na prosa e encantou gerações: Adultos, adolescentes e crianças.
Nos nossos debates falei-te muito do “Equador”.E aconteceu algo interessante que me contaste: No avião em que viajavas de  retorno ao Brasil, um pouco triste por deixares os teus amigos Fernando Reis Costa e Maria Vitória, logo ali encontraste sentada a teu lado uma senhora muito agradável, antropóloga brasileira e que levava nas mãos precisamente”O Equador” de que eu te tinha falado.
E como tu levavas um exemplar de “A Filha do Cerrado” logo ali fizeram a troca .
Durante as 10horas de viagem leste o romance de Miguel Sousa Tavares e  a outra senhora encantou-se com o teu romance.
E contaste-me bem feliz (o que é a amizade) que a referida antropóloga ao terminar a leitura do meu texto na contracapa proferiu “Muito bem escrevem estes portugueses.”
Isso me deu tanta alegria como o sucesso que tiveste na apresentação desse mesmo livro na cidade de Amora com todas as associações culturais da cidade a apoiarem e a imprensa local de carácter cultural a fazer a cobertura do evento

:-Jornal do Seixal
-Notícias do Seixal
-Boletim da Casa do Educador do Seixal
-Revista Tarde Cheia da Unisseixal

Minha querida  amiga :É um privilégio falar contigo 2 ou 3 vezes por semana sobretudo de literatura onde  abordamos temas de Machado de Assis, Cecília Meireles,   Manuel Bandeira, Paulo Coelho de quem és amiga,  e dos portugueses também, José Luís Peixoto, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Fernando Reis Costa nosso amigo comum e muito conhecido no Brasil etc,  etc. E quero dizer-te que a nossa parceria luso-brasileira na qual esteve inserida  a apresentação do teu livro em Portugal continua...
Não levarás a mal que eu partilhe com os leitores deste jornal de que me orgulho de ser colaboradora e que te chega por vezes aí, que tu e eu  temos o projecto de publicar um livro em conjunto incluindo 10 contos brasileiros e 10 contos  portugueses  na sua maioria de temática alentejana.

Muitos beijinhos daquela que consideras a tua irmã mais velha

Maria Vitória Afonso

Publicada no Diário do Sul em inícios de Outubro

 

     Carta aberta  a  Maria Vitória Afonso

 

Certa vez percebi que uma gotinha de inveja me perturbava. Fiquei furiosa!... É um sentimento que sempre quis bem distante de mim.
O fato é que conheci primeiro a tua literatura, depois, a pessoa maravilhosa que és. E, assim que criei coragem de ser conduzida pelo “pássaro grande” como disseste numa das tuas crônicas, um pouco receosa pensei: Com esta timidez não sou capaz de manter um diálogo!... Maria Vitória é fina. E eu, neste jeito biriba de ser, sinto-me aparvalhada. Quem dera se eu fosse como a professorita de espanhol!...
Maldito sentimento!... Ainda bem que me policiei há tempo!
Não há competição para a amizade. Os valores são diferentes. O bom amigo é como o joalheiro; em cada pedra trabalhada deixa o seu esplendor. Com o tempo de convivência, descobrimos o quanto a amizade é importante em nossas vidas. É algo primordial que devemos cultivar. A presença de um amigo com quem temos afinidades, é um privilégio sem preço. Pela vida a fora conheci muitas pessoas, mas que ficaram no esquecimento. Eu não soube conquistá-las; ou, talvez não souberam elas como penetrar neste coração arranhado pelas decepções. No entanto, através de Fernando Reis Costa e de ti, querida amiga, conheci outras pessoas que me despertaram desejo em preservar a amizade. Vocês me ajudaram a abrir a janela d’alma. E hoje, com carinho, agradeço. Agora sei que a solidão pode secar até os nossos pensamentos. E um bom amigo desperta em nós o desejo de sair do isolamento que obscurece a própria razão.
Lembro-me de certa vez que comentei contigo pelo MSN sobre um dos primeiros livros que li: “Olhai os Lírios do Campo”. O autor, Érico Veríssimo, é para mim um mágico que entrelaça o bem e o mal a ponto de nos fazer chorar. Até mesmo com as lágrimas, na leitura, ele nos consegue prender. Tu me disseste ser ele um dos teus favoritos. Então, apresentei-te o filho, Luís Fernando Veríssimo. — Enquanto o pai nos faz chorar com os romances, ele nos desperta o riso. — Aliás, isto é melhor! — Comentamos.
Ainda naquele dia, falei que eras privilegiada porque conheceste Érico Veríssimo pessoalmente. Logo me disseste: Ainda podes conhecer o filho que, como tu, mora no Brasil. Então, descobri no momento que faz parte do teu feitio levantar o ego de quem está contigo.
Em nossas conversas, tu me despertaste o interesse em conhecer José Saramago, Miguel de Sousa Tavares e outros contemporâneos; uma vez que antes, com exceção de ti e de Fernando Reis Costa, eu lia somente Fernando Pessoa, Florbela Espanca e os clássicos.
Assim, através da literatura luso-brasileira começamos a descobrir a nossa primeira afinidade. Agora são tantas!...
Essa troca de cultura parece que nos faz compor um fórum de experiências vividas no dia a dia. E assim nos comportamos como se não vivêssemos em dois paises diferentes. Apesar de falarmos a mesma língua, compartilhamos de variação linguística e costumes que aguçam a nossa curiosidade. Daí, aprendemos mais.
Hoje nos conhecemos não só como uma amiga virtual, mas como se fôssemos da mesma família. Aliás, com um privilégio a mais: Parente não se escolhe e eu te escolhi para seres a irmã do meu coração.


Maria da Luz

São Paulo, 5/9/2009
Publicado no Diário do Sul em meados de Outubro

publicado por appoetas às 18:56

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